terça-feira, 30 de setembro de 2014

Que feio!

Existe um ditado que diz “educação vem de berço”. Eu concordo, e isso me assusta, afinal eu não sou um exemplo de pessoa a ser seguido. Sabe aquelas pequenas coisas erradas que sua mãe gritava “menino(a), não faça isso!” quando você era mais novo, e ainda acontece até hoje? Pois é.

Além do uso dos palavrões, já comentado por aqui, há uma extensa lista de maus exemplos que eu preciso abandonar, a fim de não deixar de herança para o guri. Um dos mais clássicos é comer no sofá. Esse também é compartilhado pela minha esposa, afinal é muito mais cômodo sentar na frente da TV e mandar ver na comida ao invés de fazer todo aquele trabalho chato de tirar as coisas de cima da mesa, estender uma toalha - que provavelmente ficará suja de molho e precisará ser lavada - e comer como uma família de lordes ingleses. Esse eu admito: só vou largar mão quando o moleque tiver idade para comer junto conosco.

chato.

Continuando com o sofá, quem nunca ouviu um “tira o pé do sofá!”, não é? Eu já ouvi inúmeras vezes. Adiantou? Não. E não é só no sofá, é em cadeira, banco, banqueta ou qualquer superfície que sirva de assento - inclusive no trabalho. Para mim, achar uma posição confortável é uma batalha épica e interminável.


Não parece muito confortável.

Outro item da lista é escovar os dentes andando pela casa. Não consigo ficar me encarando na frente do espelho por muito tempo, e me entedio fácil. Meu dentista já brigou comigo, disse que tenho que prestar atenção no que estou fazendo. Eu sei que ele está certo, mas aquela vozinha na minha cabeça sempre me diz que eu já sei escovar instintivamente.

Dizem que não é educado bocejar sem colocar a mão para tapar a boca. Já eu, além de bocejar, ainda dou aquela espreguiçada gigante, enquanto praticamente imito o som do Chewbacca. É uma falta de atenção minha, e acabo fazendo isso nos lugares mais inapropriados. Uma variável do bocejo é também o espirro. Eu, infelizmente, possuo o fardo da maldição conhecida como “rinite alérgica”. Logo, espirros selvagens e inesperados aparecem de surpresa, sem que eu consiga me preparar para - educadamente - colocar a mão na frente e não fazer um som estrondoso, que normalmente assusta crianças pequenas e animais de estimação que estão próximos de mim.

Huurrrr

Para finalizar essa lista - que é apenas uma pequena parcela das várias coisas erradas que faço - é esquecer de lavar as mãos antes de comer. Pô, higiene pessoal básica, não é mesmo?  Meu poder de distração é muito grande, então eu facilmente esqueço de coisas simples e habituais. Então, se eu não estiver com aquela sensação de mão coberta por uma película de sujeira - normalmente ocasionada após mexer no carro ou na correia da bicicleta - provavelmente esquecerei de lavar. Não é sempre, claro - e agora, com o bebê em casa, comecei a me policiar muito mais a respeito disso.

Meu pai costumava dizer “faça o que eu mando, não faça o que eu faço”. Embora achasse graça disso quando era mais novo, vejo que não funciona na prática. Quem tem que dar o exemplo sou eu, e, pelo jeito, o primeiro passo na educação do meu filho será educar a mim mesmo.

sábado, 27 de setembro de 2014

São só as vozes na minha cabeça

Há algumas semanas atrás, após darmos banho no guri, minha esposa estava dando de mamar no quarto nele. Eu a ouvi me chamar e fui ver o que ela precisava. “Tem algum bicho no sótão”, disse ela, assustada. Eu bati no forro do quarto e não ouvi nada. Depois ela chamou a minha sogra - que está temporariamente morando conosco, para ajudar nas tarefas de casa enquanto minha esposa cuida do filhote - e disse a mesma coisa. Ela também não ouviu nada. Aí esquecemos o episódio e continuamos nossas vidas.

Mais ou menos uma semana depois, a mesma coisa: ela me chamou no quarto, disse que ouviu um barulho no sótão, como se fosse um rato, ou um morcego. Dessa vez, quando bati no forro, ouvi o som também. Realmente parecia ser um rato, e ainda fez um barulho como se estivesse fugindo para outro canto do sótão. Pensei “o que um maldito rato está fazendo no sótão de um sobrado? Não tem comida pra ele lá!”. Peguei uma escada, uma lanterna e subi até lá, para tentar achar a droga do rato - ou o que quer que fosse. Para meu azar, o local onde ouvimos o barulho ficava bem atrás da caixa d’água, e eu não conseguia alcançar. Minha sogra chegou, me entregou um cabo de vassoura, e eu comecei a bater e empurrar, a fim de achar o invasor. Nada. Desisti e fiquei no aguardo de outro dia, onde o barulho estivesse em outro lugar.

Terceiro dia: mesmo ritual. Chego no quarto, minha esposa já injuriada por causa do rato. Bati no forro e ouvi o barulho de volta. Porém, dessa vez, reparei em outro detalhe: a luz do quarto se alterava quando ouvíamos os movimentos do animal. Aí eu parei e comecei a analisar a situação. A luz enfraquecia, nenhum som. A luz voltava ao brilho normal, o barulho aparecia. Assim foi umas três vezes seguidas, até que me dei conta do que estava acontecendo: minha sogra estava lavando a louça, e temos uma torneira elétrica. Quando ela ligava a torneira, a luz diminuía um pouco; quando ela desligava, a luz voltava ao normal, e desencadeava o fechamento da válvula da caixa d’água (chiado do “rato”), que - provavelmente com a pressão da água da rua - fazia também o som do “rato” andando pelo forro. Só nos restou dar risada da situação e da nossa imbecilidade.


Pô, Remy, era você o tempo todo!

Esse episódio me fez lembrar de quando era criança, e quantas vezes ouvi e vi - principalmente à noite - coisas que, na verdade, não estavam lá. Obviamente, me fez também perceber que - muito provavelmente - meu filho também ouvirá barulhos estranhos à noite. Vai pedir para eu olhar debaixo da cama e dentro do guardarroupa para ver se tem monstros, irá visualizar uma pessoa parada e o encarando no local onde ele pendurou o moletom, ouvirá sons esquisitos pela janela do quarto, que na verdade será apenas os galhos da árvore batendo no vidro, por causa do vento.

Sempre que vemos na TV ou em filmes exemplos como esse, normalmente o pai debocha do filho. “Não tem nada aqui, não tá vendo?”, ou “Isso é sua imaginação! Vai dormir!” - e quando o filme é de terror, normalmente esse pai paga pela prepotência. Aí eu penso: que moral eu tenho para depreciar o guri por ouvir e ver coisas, se eu mesmo acreditei por quase uma semana que um rato estava no forro da minha casa? A nossa mente nos prega peças, e o imaginário de uma criança é infinitamente maior que o de nós, adultos.

Prometo que não farei algo desse tipo

Eu quero encontrar uma forma de poder fazê-lo enfrentar tais medos, ver que não tem nada com o que se preocupar, ao invés de simplesmente dizer “é sua imaginação” e mandar dormir logo. Será que é melhor apostar na maturidade da criança, ou até mesmo atribuir a proteção dele a Deus e ao anjo da guarda? Ou será que é melhor entrar no mundo de fantasia dele e, quem sabe, comprar uma espada e escudo de brinquedo e fazê-lo acreditar que é um guerreiro e que quem tem que ter medo são os “monstros”, e não ele? Acredito que cada alternativa tem um ponto positivo e um negativo, mas o mais importante é que, no fim das contas, ele não dependa de mim ou da mãe para enfrentar os seus medos, independente de qual fase da vida estiver.

Isso aí, garoto!

Trilha Sonora:

terça-feira, 23 de setembro de 2014

Cá com meus botões

Além dos carrinhos e do Lego (esse depende que eu comece a ganhar muito dinheiro - e logo), um dos brinquedos que eu mais queria que meu filho tivesse é uma quadra e times de futebol de botão. No top 10 das minhas maiores frustrações da vida está o dia quando descobri - lá com meus 15 anos - que minha mãe tinha dado minha coleção de futebol de botão para crianças carentes - e sem meu consentimento. Ok, crianças carentes mereciam mais do que eu, afinal já estava na idade de largar os brinquedos e virar gente grande. Mas era MINHA coleção =(.

Eu lembro bem, tinha 52 times diferentes, entre seleções e agremiações. E os melhores não eram aqueles supercaros, feitos de resina ou de plástico resistente, mas sim aqueles de plástico fraquinho, com pontas debaixo e dos lados - que você precisava lixar pra poder fazê-lo deslizar - e que custava R$ 0,50 na papelaria da rua de cima. Eu ainda tinha raridades, como Botafogo-PB, Novorizontino, Tuna Luso e Nacional-AM. Times que provavelmente nunca mais encontrarei.

Esse é o melhor tipo!

Pra quem não conhece, futebol de botão (ou de mesa) é constituído de uma tábua de madeira lisa, com o desenho de um campo de futebol, dois times de 10 jogadores + goleiro (que podia ser tanto uma peça mais larga de plástico quanto uma caixa de remédio), e uma palheta, que servia para movimentar os jogadores, além - é claro - da bolinha, que normalmente é um disco pequeno de plástico ou um pequeno cubo. Nas regras que jogava desde criança, era preciso pedir ao adversário para preparar seu goleiro antes do chute a gol, a fim de posicioná-lo para tentar a defesa. Não havia impedimento. Se você batesse com muita força em um jogador adversário, era falta. Dentro da área, era pênalti - e aí o adversário não podia preparar o goleiro, apenas deixá-lo no meio do gol. Apenas 3 toques na bola por jogador. Se a bola bateu em um jogador adversário, é a vez dele. Com regras tão bem descritas, obviamente era fácil promover um campeonato com todos os coleguinhas do condomínio. Eu, na verdade, nunca fui muito bom no jogo - aprendi a jogar direito só quando era mais velho e, obviamente, sem mais amiguinhos para brincar.


Goleiro de plástico - uma porcaria


Já esses eram bacanas! Feitos de madeira, caixa de remédio, de sabão e ainda com feijão ou pedras dentro, para fazer peso!

Tive certeza que meu filho teria que aprender a jogar futebol de botão - comigo =D - no dia em que fui pela primeira vez à casa de um amigo meu - agora padrinho do guri. Estávamos entediados, e ele me disse que tinha uma quadra e alguns times. Uma lágrima quase escorreu no meu rosto, e fomos jogar. Um emocionante jogo que acabou 3x2, com empates e viradas de placar. Mesmo tendo lá naquela casa um computador e um videogame, TV e vídeo cassete (naquela época), resolvemos jogar botão. E foi mais divertido que qualquer outra coisa que pudéssemos fazer naquele dia, mesmo com aqueles eletrônicos à disposição. Aí, assim como no caso da coleção de Hot Wheels, você pode me perguntar “mas a coleção é sua ou da criança?”. No caso do futebol de botão, eu digo que a coleção será nossa. Pela necessidade do meu filho não ficar preso apenas com entretenimento eletrônico. Pela coordenação motora, senso de estratégia, habilidade manual e relação de competitividade que essa atividade pode proporcionar ao guri. E, obviamente, pelos 52 times que já devem ter feito a alegria de algumas crianças, mas que sempre morarão em meu coração!

sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Quem não chora, não vira um mala

Se tem uma coisa que posso dizer que aprendi com meu pai é “não seja um mala”. Eu tenho até urticária de ir, por exemplo, a um mercado, e ver criança esperneando, berrando e fazendo pirraça porque quer isso ou aquilo.

Era comum, na minha infância, ir com o meu pai para a empresa dele, ou “passear” no centro da cidade, enquanto ele ia ao banco, visitar clientes ou qualquer outra tarefa que demandasse andar por aquela região. O maior problema - além de andar bastante, para alguém que tinha pernas tão curtas - era que, a cada quadra, quase em cada esquina, havia uma lanchonete. Uma lanchonete daquelas que emana cheiro de pastel e coxinha, gerando fome automática. No início, eu ficava enchendo o saco do meu pai “pai, compra coxinha! Pai, compra chocomilk! Pai, pai, pai…” e ele dizia que não. Dizia uma, duas, três vezes, aí levantava a voz e eu ficava sem lanche e com bico. Voltávamos pra casa e eu só na vontade. Um belo dia ele me levou novamente para o centro, e eu não pedi nada. Não queria que ele brigasse comigo de volta. Pois no fim do passeio, passamos em uma lanchonete, e ele me comprou uma coxinha e um chocomilk.


Na minha época, ainda era o "Saboroso Choco Milk"

Naquele momento eu aprendi que o ditado “quem não chora, não mama” só serve para bebês, afinal eles só tem essa forma de se manifestar. Eu descobri que era só eu não torrar a paciência do meu pai durante os afazeres dele que no final eu seria recompensado pelo bom comportamento. Obviamente cometi alguns deslizes com o passar dos anos, ao pedir outras coisas que não eram simplesmente uma coxinha e um chocomilk. Mas quando dava errado, eu me lembrava daquele passeio no centro e entendia o porque não ganhei. Com o tempo, também fui descobrindo que, às vezes, eu não ganhava uma coxinha e um chocomilk por falta de condições (dinheiro, tempo, etc.), e não por falta de merecimento. Aí descobri também que não é porque você merece algo que a vida vai te dar. Ao longo dos anos aprendi, com esse pequeno episódio, a ser educado, a ser paciente, o valor do tempo, o valor do dinheiro e que não devemos ser tão pretensiosos a ponto de achar que sempre somos prioridade.


Dinheiro não compra felicidade. Mas compra Coxinha, que é quase a mesma coisa

Não sei se meu pai fez de propósito, se era exatamente essa a lição que ele queria me dar no dia ou se simplesmente bateu a fome e aproveitou pra me levar junto à lanchonete, mas funcionou muito bem. E mesmo que tenha sido apenas um acaso, eu usarei como premissa, pois enquanto muitos ensinamentos são justificados pelos pais como “quando você crescer, irá me agradecer”, esse eu entendi mesmo sendo criança, mesmo sem a maturidade e o conhecimento de um adulto. Isso também me faz pensar em outra coisa: crianças são muito mais espertas do que imaginamos que elas são - talvez bem explicadinho, não será necessário esperar ela crescer pra entender, pois quem sabe um desses acontecimentos não acaba passando batido pela memória? A vontade de comer coxinha passou, ela já não está mais entre nós, mas o aprendizado ficou.

segunda-feira, 15 de setembro de 2014

Gambiarras (ou procedimentos alternativos)

Nesse fim de semana dei mais um passo em direção a ser um pai de verdade.  Consegui arrumar o sofá de casa, que já estava ficando muito desconfortável. Ok, “arrumar” é modo de falar, foi mais uma medida paliativa, por assim dizer. Também não foi fácil. Imaginei que arrumaria em meia hora, mas apenas após 3 horas de esforço, com mãos e braços arranhados como se tivesse entrado em uma briga com um gato selvagem, e ainda sem conseguir solucionar da forma que imaginei que poderia fazer, finalizei o trabalho. Em uma escala de 0 a 10, acredito que consegui um louvável 7.

Já sei trocar chuveiro, botijão de gás, arrumar tomadas, fazer extensão elétrica, montar e desmontar o carrinho de bebê, entre outros afazeres que normalmente são denominados ao pai. Mas ainda tenho muita coisa a aprender, afinal o Manual do Pai diz que um pai deve saber consertar tudo.

Meus dois avôs são os meus exemplos de como ser um homem. Meu avô paterno - que Deus o tenha - vivia para servir. Quando íamos aos domingos na casa dele, desde cedo já estava de pé, na churrasqueira, preparando o almoço para nós. Durante a refeição, ele continuava trazendo mais carne, e só no fim ia comer - e não adiantava insistir para ele sentar conosco! Além disso, dava jeito em qualquer coisa que precisasse de conserto ou de “uma mãozinha”.  Meu avô por parte de mãe é um “resolvedor de problemas”. Sempre que alguém da família tem um problema, desde um chuveiro queimado até consertar a estrutura da casa, ele sabe como resolver. E se não der pra fazer da forma correta, sabe dar um “jeitinho”. Um verdadeiro MacGyver. Ambos fazem parte da seleta porção de seres humanos do sexo masculino que tiram o “Manual do Pai” de letra. Se duvidar, eles mesmos ajudaram a escrever!

Foto dos meus avôs quando mais novos.

O mais interessante é pensar em como se adquire todas essas experiências. Quantas pessoas já viram como é um sofá por dentro, por exemplo? Quantos você conhece que conseguem fazer uma TV voltar a funcionar sem ao menos saber qual o defeito? Quantas vezes alguém chegou para você e disse “agora vou te ensinar como se instala um chuveiro”? Hoje ainda temos o vô Google, o pai Youtube e o tio Yahoo Respostas (esse normalmente é aquele tio que sempre te dá péssimos conselhos e te coloca em furadas). Quando não sabemos algo, basta procurar na internet, pois é bem provável que, assim como o Neo em Matrix, você aprenda em apenas alguns minutos algo que nunca imaginou conseguir fazer. Mas e na época de nossos pais e avós, como era feito?

“- Eu sei kung-fu!”
“- Quem perguntou?”

Provavelmente é o tipo de conhecimento que se passa de pai para filho. Aquela herança importante, que molda a criança para a idade adulta. Espero aprender ainda muita coisa para ensinar ao meu filho, mas caso eu não saiba como fazer, tomara que o vô Google me ajude, afinal poucas coisas são mais frustrantes para uma criança quanto descobrir que seu pai não sabe tudo.