sexta-feira, 4 de novembro de 2016

O doce som do berreiro


Madrugada de uns 10 dias atrás. Acordei assustado, ouvindo um choro de criança. Deveria ter ficado incomodado, afinal meu sono foi interrompido e eu precisava acordar cedo para trabalhar, mas eu acabei abrindo um sorriso. Pode parecer estranho, mas sorri porque a voz alta e esganiçada vinha do meu filho, fazendo manha. Voz essa que eu não ouvia há mais de 1 ano.

"Hora de acordar, cambada!"

Para quem não sabe ou não lembra, meu filho precisou fazer uma traqueostomia com 11 meses, e desde então ele ficou, dentre outras coisas, sem poder falar. Há algumas semanas, iniciamos o processo de ocluir a cânula (ou, em bom português, “tampar a bagaça”) com um rolinho de esparadrapo, para que ele se habituasse a respirar pelo nariz e boca. Já no segundo dia ele passou quase todo o tempo, tranquilão, sem se preocupar com a traqueo tampada (isso, claro, quando ele não tirava o esparadrapo e colocava na boca, normal). Com isso, tivemos coragem o suficiente (junto com acompanhamento médico, claro) para tirar a cânula de traqueostomia de vez, e no momento ele já está sem, com o buraco na garganta já quase completamente fechado e tampado com curativo, aguardando apenas uma cirurgia simples para costurar e concluir de vez a Saga da Traqueostomia.

Muito bem, guri!

Mas agora começará uma nova saga: a Saga da Fala. Como se ensina uma criança a soltar a voz novamente, sendo que ela passou 1 ano da vida (e bem o período onde aprenderia a falar) sem poder emitir sons pela boca? Imaginem a frustração de ver que ele já mexia a boca para falar “mamãe” e “papai”, mas agora que pode soltar a voz, quando pedimos para ele falar “mamãe” ou “papai” ele apenas mimetiza com a boca? Como vamos tirar a mania dele apenas apontar ou chamar com a mão para as coisas/pessoas que ele quer e começar a pedir e chamar usando a voz? Obviamente ele terá um tratamento especial com fonoaudiólogo e com o tempo deve aprender a importância de usar a fala, mas por enquanto só nos resta rir e curtir suas balbuciações, gargalhadas, gritinhos e choros - afinal, se tem algo que ele não precisou reaprender, é como abrir um belo berreiro.


segunda-feira, 31 de outubro de 2016

Ainda tem alguém ai?


Alô? Alguém aí? Bem, ao contrário do que possam ter pensado aqueles que notaram a inatividade do blog nos últimos meses, eu não fui abduzido por alienígenas. Também não fui recrutado por uma agência secreta para virar um espião de elite, tampouco ganhei na Mega-Sena e fui morar em Mônaco, numa cobertura de frente para a Sainte-Dévote.

Mônaco parece um lugar bacaninha pra morar

No último texto, informei que meu filho passou o aniversário dentro do hospital. Bem, a saga do hospital, na verdade, durou até o início de Agosto, por conta de uma complicação ocorrida após a cirurgia para reparar a laringe do pequeno: ele teve duas paradas cardiorrespiratórias e, por consequência, sofreu lesões cerebrais, que impactaram severamente nos movimentos dos braços, das pernas e também em sua visão, além de constantes convulsões. Por semanas, ele se tornou um “recém nascido”, sem quase se mover, sem conseguir firmar pescoço, costas e membros. Mal interagia conosco. Como a proposta desse blog, acima de relatar o dia a dia de um pai com seu filho, é relatar o dia a dia de um pai com seu filho utilizando o bom humor, resolvi dar um tempo, já que - como podem imaginar -, meu humor estava um tanto quanto abalado.

Mais deprimido que o Ben Affleck falando de Batman v Superman

Mas se eu estou escrevendo aqui agora, é porque as coisas melhoraram, certo? Certo! O guri teve uma evolução incrível, chamada de “milagre” algumas vezes por uma das neurologistas que o atendeu. Foram mais de 3 meses de luta, choros e risadas, com muitos tratamentos, muitos sustos e muitas comemorações, e hoje posso dizer que, se ele não está 100%, está cerca de 92,3% recuperado de todas as enfermidades.

Rumo aos 100%!!!

Quem acompanha mais assiduamente esse pequeno sítio eletrônico na rede mundial de computadores sabe que sempre me questionei sobre o motivo de ter criado o Um Ser Pai. Agora, penso que sei a resposta: para mostrar ao mundo (ou para os fiéis 1500 seres que curtem a página no Facebook e para quem eles quiserem compartilhar essa história) que milagres existem, basta ter fé e apoio de todos que nos querem bem. Nesses últimos 3 meses, conseguimos junto a amigos e parentes (e amigos de parentes) uma corrente enorme de orações e vibrações positivas que tenho certeza que foi primordial para a recuperação do pequeno, afinal os próprios profissionais da área médica se surpreenderam com a evolução apresentada - enquanto o primeiro eletroencefalograma, feito após o ocorrido, indicou várias e várias lesões em todos os pontos do cérebro do pequeno, o último, feito semana passada, tem como resumo do laudo “dentro dos limites da normalidade para a idade”. Você, leitor, talvez não seja religioso, não creia num dogma de fé, não acredite em uma força superior e até ache que tudo isso que estou escrevendo é besteira, mas quero deixar aqui, registrado, que fomos parte de uma experiência traumática que terminou excedendo todas as expectativas de melhora, e nesse cenário é difícil não crer que houve uma “ajuda externa”. Chame de Deus, de Jesus, de Santo Inácio de Antioquia, de Oxalá, de Odin, de Mestra Suprema da Força que Rege a Vida, do que quiser. Diga que “Ele” ajudou os médicos a saberem como agir e qual tratamento indicar, que “Ele” apontou para nós qual profissional procurar ou que “Ele” trabalhou diretamente no corpo do nosso filho para recuperá-lo. Não importa como você prefira explicar (ou tentar explicar) o que nos levou a ter nosso filho de um estado semi-vegetativo a uma criança saudável e “comum”, mas acredite em mim: foi algo sobrenatural. Eu, particularmente, creio que foi obra de Deus.

Há quem ache que milagres são instantâneos, que um curandeiro vai dizer ao manco “levanta-te e anda” e ele sairá saltitante. Pois eu te digo que milagres são feitos com calma, com esmero, como uma escultura de barro. Sei disso porque vivenciei um nos últimos 3 meses. Na verdade, tenho vivenciado um há mais de dois anos, quando vi, pela primeira vez, o meu filho!

Agora posso dizer, com toda a certeza, que os dias de cão terminaram!


segunda-feira, 18 de julho de 2016

2 anos de Brucioêine


Hoje é o aniversário de 2 anos do guri. Era uma data que estava sendo esperada cheia de expectativas, pois há uns 2 meses tivemos uma confirmação do médico que seria possível remover a estenose através de cirurgia e, consequentemente, a traqueostomia. Logo, já estávamos nos preparando para ensinar nosso filho a assoprar as velinhas no dia da festa.

Não seja esse amiguinho

Mas o destino - novamente, aquele sarrista - tratou de nos pregar mais uma peça: a cirurgia demorou por conta da burocracia do plano de saúde, e embora a cirurgia - feita no início do mês - tenha sido um sucesso, nosso filho não deu conta de respirar sem o auxílio da traqueostomia. Algo “comum”, segundo o médico, pois ele já havia “desaprendido” a respirar com nariz e boca. Imagine.

No frigir dos ovos, a solução foi colocar novamente a traqueostomia, e fazer a retirada aos poucos, diminuindo a largura da cânula de traqueostomia periodicamente, de acordo com a capacidade respiratória do bacuri. Resultado: ele vai passar o aniversário de 2 anos dentro do hospital.

viva... (...) ¬¬

É um sentimento agridoce, pois ao passo que sabemos que já foi retirado o que o impedia de respirar normalmente, ele ainda permanece com aquele “caninho” no pescoço. Estávamos já consolados em esperar até 3, 4 anos de idade - segundo a primeira previsão do médico - para a retirada, mas ouvir que seria possível retirar antes dos 2 anos nos fez imaginar e fantasiar tudo o que não tivemos quando ele tinha a idade em que normalmente as crianças começam a falar.

Não vai dar para soprar as velinhas de 2 anos, mas espero que no aniversário de 3 ele já possa cantar - mesmo que errado - a canção de parabéns. E que Julho de 2017 nos dê um descanso, porque passar o mês no hospital pelo quarto ano seguido seria para deixar qualquer um louco.

Feliz aniversário, moleque! Esse ano não vai ter festa, mas ano que vem vai ser de arromba!

Disney: nos aguarde!

quarta-feira, 6 de julho de 2016

Curtinha #2


Voltando do trabalho de bicicleta, lembro que não há comida em casa e minha esposa não está lá - ou seja, o milagre da geração espontânea de alimento não irá acontecer. No caminho, passo em uma lanchonete, de onde eu tenho um cupom de desconto para um sanduíche e um refri, para levar o lanche para casa. Percebo a burrada que fiz no momento em que a atendente me entrega o sanduíche com a bebida em um copo de plástico com tampa para o canudinho, numa embalagem de papel para viagem. Penso "como vou levar isso de bicicleta???". Abro a mochila e coloco o pacote com todo o cuidado num canto, cercando-o com todos os pertences que possuía. Pedalo em direção à minha casa, passando pelos 8km de trechos tortuosos e sinuosos, com direito a subidas íngremes, descidas mais íngremes ainda, além de um trecho de brita e uma ponte de tábuas de madeira, inclinando e reclinando o corpo a fim de evitar ao máximo o chacoalhar a mochila. Ao chegar em casa, já desiludido, imagino que meu lanche e minha mochila estão lavados por xarope de caramelo. Surpreso, vejo que apenas uma quantidade ínfima de refrigerante molhou apenas um pedaço do fundo da embalagem, mantendo lanche, mochila e pertences secos. Penso “vitória!”. Fim.



“Tá, mas o que isso tem a ver com o tema do blog, sobre paternidade e tudo mais?”, você pode perguntar. Bem, é simples: todo pai, principalmente os de primeira viagem, se sente inseguro por várias vezes, sem ter certeza que tem capacidade de cuidar do seu rebento em todas as ocasiões possíveis. Bem, se eu consegui cuidar de um copo de refrigerante com tanto esmero, sinto que posso fazer qualquer coisa para garantir a integridade do meu rebento!

sexta-feira, 1 de julho de 2016

2 anos de Um Ser Pai!

YAY!

Admito que não tinha ideia sobre o que escrever hoje. Ao passo que parece ser um dia importante, comemorativo, legal, bem loco, empolgante, minha mente estava num branco só.

LEITE!

- Pensei em escrever sobre a evolução do blog nesse último ano, mas ela foi pequena. Eu diminuí o número de textos por motivos de força maior, e o número de seguidores cresceu pouco;

- Pensei em escrever sobre a evolução do meu filho, mas isso eu faço nos textos, sempre que possível;

- Pensei em fazer igual ano passado e implorar por likes, comentários e compartilhamentos, mas achei que iria ficar repetitivo;

- Pensei em encerrar o blog, mostrando a estrada percorrida até aqui e assumindo que não estou dando a atenção merecida ao blog;

- Pensei em virar hippie e viver da minha arte, das coisas que a natureza dá, mas aí lembrei que tenho um filho pra alimentar.

A Milena aprovaria essa vida

Quando já estava até desistindo de publicar algo, eis que ontem - às 22h (horário que a criança nem devia mais estar acordada) - eu passei meia hora assistindo, bobo, meu filho andar de um lado a outro da sala, empolgado, dando risadas e aplaudindo a si mesmo pelo feito. Foi a primeira vez que ele andou sozinho e em grandes distâncias (levando em consideração que 2 metros é uma grande distância para ele). Se for contar o percurso de ida e volta dele durante esses 30 minutos, ele facilmente está pronto para a meia-maratona nacional de bebês até 2 anos de idade. Chance de medalha!!

Usain Bruce

Ignorando a empolgação paternal que te faz babar por qualquer coisa que o filho faz, imaginei que aquela era a forma dele me relembrar dos motivos que criei o Um Ser Pai, e que essa data deveria SIM ser comemorada. Foi como se ele me dissesse “siga em frente!” (♫ olhe para o lado ♫)

Então, segue o barco! Vamos para mais um ano de blog! Rumo a um milhão de compartilhamentos! (Sonhar não custa nada, não é?)