segunda-feira, 27 de novembro de 2017

Qual o segredo da Galinha Pintadinha?


O guri nunca foi de ficar preso à TV. Na verdade, nunca foi de ficar entretido com nada por muito tempo. Nem mesmo o celular, o violão ou o jogo de futebol (as três coisas que mais o deixavam interessado) eram capazes de mantê-lo ocupado por mais de 2 minutos. Mas aí aconteceu: finalmente dei o braço a torcer e colocamos ele para ver Galinha Pintadinha, e ele ficou hipnotizado.

Ei! Guri! Eeeeei!

Não sabemos ao certo qual o poder que uma galinha azul tem sobre a mente das crianças, mas a verdade é que, de todos os programas infantis que existem, a bendita ave parece ter alguma feitiçaria. Foi assim com meu sobrinho, com minha sobrinha, com as crianças que minha irmã dava aula… Bastava começar o “popopó” e todas permaneciam vidradas na TV. Esqueça Mundo Bita, Patati Patatá, Show da Luna, Backiardigans e Peppa (essa última até tem exercido uma certa atração ultimamente); se quer uns 5 minutos de sossego, coloque a tal da penosa para distrair seu bacuri.

Sinto muito, Peppa, mas você não tá com nada

Queria de verdade conhecer o criador (ou criadora) da Galinha Pintadinha para olhar bem na cara dele e dizer “mano, você tá de parabéns!”. Não sei se são as cores, a melodia bem executada, a seleção das músicas ou bruxaria, mas o fato é que funciona. E funciona tão bem que agora tem Galinha Pintadinha em inglês, francês, espanhol, japonês… Basta procurar no Youtube e você encontrará! Essa pessoa deve estar milionária hoje, e não dá para dizer que não mereceu.

Essa é a Galinha Pintadinha em inglês

Apesar de ser grato à Galinha Pintadinha por nos proporcionar alguns minutos de tranquilidade para executarmos outras tarefas no dia-a-dia de pais, minha curiosidade teima em me fazer parar às vezes na frente da TV e pensar “qual é o seu segredo, sua galinha???”. Graças a isso, já sei cantar todas as músicas (inclusive algumas em inglês). Talvez a hipnose da galinácea não afete somente as crianças, afinal.


terça-feira, 31 de outubro de 2017

Quando o ser humano deixa de ser egoísta


Nós, seres humanos, somos egoístas por natureza (nota do autor: se por acaso você for um alienígena, perdoe minha generalização). Por mais que vivamos em sociedade e dependamos uns dos outros, no fundo sempre buscamos satisfazer nossas próprias vontades, o que faz ser muito raro aquilo que chamamos de altruísmo. Contudo, quem é pai ou mãe já deve ter se visto numa situação onde se esquece completamente das suas vontades para fornecer ao seu filho ou filha um momento só dele(a). O momento mais recente, para mim, foi há algumas semanas, com meu primo, num aeroclube.

Meu tio tem um trike, que é basicamente um triciclo motorizado. Não é nada espetacular, deve chegar no máximo a uns 30 km/h, mas ainda assim, dei as primeiras voltas com meu filho no colo andando bem devagarinho e usando uma das mãos para segurá-lo contra meu corpo, com medo dele se jogar ou algo assim. Qual não foi minha surpresa a, pouco tempo depois, ele mesmo se prontificar a segurar o guidão com suas mãozinhas e olhar para trás, para mim, sorrindo, cada vez que eu acelerava um pouco mais? No fim, estava tacando-lhe pau no melhor estilo Marcos da Vó Salvelina (alô memes de 2013, um abraço!) e ele curtindo a beça cada volta.

É parecido com esse aí

O mais interessante disso tudo é que, embora seja bacana brincar com o trike, é algo que enjoa rápido para um pseudo-adulto tal qual eu. Mas, ao ver como o guri estava empolgado e se divertindo com tudo aquilo, minha vontade era de dar mais e mais voltas, para ter certeza que, no fim do dia, ele iria se lembrar, de forma feliz, do dia que teve. Podia aproveitar o tempo de outra forma, interagindo com meu primo, com meus tios, com a minha esposa, mas quis ficar ali, com ele. No fim do dia, recordando de como ele tinha ficado radiante com a brincadeira, eu acho que finalmente entendi o que significa ser pai: deixar de ser tão egoísta para aprender a servir aquele que depende de você para tanta coisa - inclusive para se divertir.

"Perguntei ao meu marido como as coisas estavam indo, e ele me mandou essa foto"

segunda-feira, 23 de outubro de 2017

Curtinha #9


Ontem cortei o cabelo numa barbearia de portinha no centro da cidade. Tinha um rádio relógio tocando Chicago - If you leave me now, circulador de ar Britânia pra dissipar o calor, barbeiro de bigodão e cabelo estilo Chitãozinho e Xororó anos 80 e, no final do corte, como loção pras partes que usou navalha, passou Leite de Colônia verde. Por mais estranho que pareça, lembrei da minha infância. Na minha época de guri, não existiam cabeleireiros especializados em cortes infantis. Nada de banco de carrinho ou de cavalinho. Nada de Galinha Pintadinha passando numa TV. Nada de brinquedos, pula-pula ou piscina de bolinhas. A criança sentava num caixote de madeira e o tiozão de bigode e cabelo com mullets cortava seu cabelo como se fosse um adulto. Ainda assim, não me lembro de ter problemas ao cortar o cabelo, enquanto meu filho, mesmo com todos os brinquedos e distrações proporcionados pelo estabelecimento infantil, ainda morre de medo da maquininha. Não sei que conclusão tirar disso, mas é interessante ver o contraste gigantesco de um mesmo evento num espaço de apenas 25 anos.


sexta-feira, 29 de setembro de 2017

6 Dicas de vida que um pai não deveria dar, mas dará


Mesmo que meu filho tenha apenas 3 anos, volta e meia me pego pensando em como agirei quando ele tiver seus 15, 16, 18, 20 anos (ou seja, aquele período que você, como pai, tenta dizer para ele não fazer algo de errado e ele vai e faz exatamente o contrário). Então, pensando na famosa psicologia reversa e também para ensinar didaticamente ao filho ou filha que a vida não é fácil, enumerei algumas dicas importantes para dar aos jovens filhotes que acham que já são donos do próprio nariz:


  • Ficar bêbado
    • O fato: são raros os adolescentes/recém-adultos que nunca tomaram um porre na vida, e com certeza os pais recomendaram-nos a não beber demais.
    • A dica: Ao menos uma vez na vida, o jovem rebento precisa ter uma experiência de demasia alcoólica. 
    • Aprendizados: 
      • dar valor às coisas invisíveis aos olhos (como, por exemplo, o fígado que carrega dentro de seu corpo);
      • As consequências de seus atos (através da forte e incessante dor de cabeça da ressaca);
      • Amor-próprio e dignidade (ao ter suas fotos e vídeos embaraçosos divulgadas nas redes sociais pelos seus amigos).
outro aprendizado: a gravidade tende a ficar mais forte
  • Arranjar um emprego ruim
    • O fato: jovens sonhadores querem arranjar o emprego dos sonhos aos 20 anos, abrir uma startup aos 22 e ter seu primeiro milhão aos 25. Qualquer coisa abaixo disso, eles negam e preferem continuar às custas dos pais, jogando seu videogame e saindo com os amigos com a grana da mesada.
    • A dica: arranjar um emprego que pague mal, exija muito da pessoa e que constantemente faça o ser pensar “o que tô fazendo aqui ainda???”.
    • Aprendizados:
      • valor do dinheiro (ao trabalhar 8h/dia, inclusive sábados, e receber 400 reais no fim do mês);
      • moldar caráter (quando o chefe começar a gritar e exigir prazos e metas impossíveis, usando palavras de baixo calão, fará o jovem pensar “eu nunca serei assim!”);
      • dar graças mesmo quando a situação for ruim (ao conseguir um emprego melhor no futuro e, nos momentos de frustração, pensar “podia ser pior — tipo meu primeiro emprego).
Seu Madruga tinha razão
  • Não comprar como primeiro carro um 0 Km
    • O fato: seu filho ou filha vai te encher o saco para que você o ensine a dirigir. Depois, pedirá para andar com o carro sempre que vocês estiverem em alguma região deserta, reta e sem grandes riscos de causar tragédias no trânsito. Isso, claro, antes dos dezoito. Depois da maioridade, sonharão com aquele carro 0 Km, com uma fita vermelha no capô e você - o pai ou mãe - com a chave balançando na mão.
    • A dica: esqueça  o carro 0 Km. Seja dando de presente ou fazendo o filho pagar pelo próprio carro com seu suado dinheiro (de preferência angariado pelo emprego ruim listado acima), que seja um carro rodado. De preferência já batido e com, no mínimo, 5 anos de fabricação.
    • Aprendizados:
      • mecânica (quando o carro der problema numa sexta-feira chuvosa, de manhã, no meio da rodovia);
      • não se martirizar com danos materiais (ao riscar a lataria na coluna da garagem, quebrar a lanterna traseira ao dar ré no mercado ou amassar o para-choque fazendo uma baliza — algo que vai indubitavelmente acontecer. O conserto em um carro 0 Km sairia bem mais caro);
      • o poder da barganha (nos momentos que tiver que combinar com o mecânico o custo da troca dos amortecedores ou quando for vender o carro e o vendedor querer dar apenas 8 mil no carango).
Outra possibilidade de danos ao veículo: ex-namorado(a) maluco(a)
  • Passar uma noite acordado:
    • O fato: “festar a noite toda!!!”. Que jovem nunca disse isso? A sensação que “só se vive uma vez” está sempre à flor da pele dos “teens” — mesmo que o dia seguinte traga consequências.
    • A dica: encorajar o jovem a passar a noite em claro. De preferência num domingo, tendo prova ou trabalho na segunda-feira.
    • Aprendizados:
      • o valor de uma boa noite de sono (no momento em que, mesmo que ele desligue o despertador, você, como pai ou mãe, fará questão de fazer aquela faxina na casa, com direito a aspirador de pó e enceradeira, ou então cantar bem alto a música que tocar na abertura do programa da Ana Maria Braga);
      • “Deus ajuda quem cedo madruga” (porque o horário comercial demanda foco das pessoas das 8h às 18h);
      • o mundo não pára porque você está com sono (pois, independente da noite de festa ser na sexta ou no sábado, existem coisas a serem feitas no fim de semana. E se não tiverem, você como pai ou mãe tem a obrigação de criar alguma coisa para o rebento fazer — tipo cortar a grama).
Também dá para aproveitar para zoar seu(ua) filho(a) um pouco
  • Entrar numa briga
    • O fato: o jovem é cheio de si, cheio de energia e normalmente acha que está certo. Isso, no mundo real, pode criar atritos.
    • A dica: dá porrada, filho(a)!
    • Aprendizados:
      • causa e consequência (ao levar um soco após ter gritado “ei, seu bunda mole!”);
      • os problemas não vão embora num passe de mágica (afinal, aquele chute no olho vai doer por alguns bons dias);
      • tudo pode ser resolvido na conversa (pois dói menos);
outra dica: se for brigar, esteja sóbrio
  • Entrar no cheque especial no banco (o famoso limite)
    • O fato: jovens normalmente não sabem controlar suas finanças.
    • A dica: diga para sua criança-adulta que aquele valor final no extrato bancário é realmente o quanto de dinheiro que ele possui (e não que os 2 mil reais são, na verdade, 1900 de limite). Se ele perguntar sobre juros, diga que “não dá nada”.
    • Aprendizados:
      • dinheiro não nasce em árvore (também conhecido como “você só colhe o que planta” ou, em outras palavras, o dinheiro que você ganha é só o que você pode gastar);
      • nunca fique em débito com ninguém (principalmente com a máfia. Se o banco é capaz de te cobrar juros de 200% ao ano, pense o que Don Corleone faria com você);
      • vermelho significa pare, verde significa siga (eu sei, é algo bem óbvio, mas às vezes é preciso ser mais lúdico para que o jovem aprenda).
Se mantenham longe da máfia, crianças



Em quase 33 anos de idade, se tem algo que posso dizer que aprendi é que “o que você não aprende com os pais, a vida se encarrega de ensinar na marra”. Se eu puder dar uma mãozinha para meu filho quando a hora chegar, por quê não fazê-lo, não é?

sexta-feira, 15 de setembro de 2017

Curtinha #8


Meu filho tem o costume de apontar as coisas com o dedo do meio. Tentei exaustivamente mostrar a ele que não é esse o dedo correto, e até funcionou com a mão esquerda, mas a direita ainda insiste em exibir o pai-de-todos em destaque. Certo dia estávamos em uma igreja pequena, na missa dominical. A igrejinha, cheia, tinha pessoas apinhadas até fora da porta, e eu, embora tivesse conseguido um lugar lá dentro, precisei sair para tentar fazer o guri dormir. Deitei-o no colo e comecei a andar de um lado a outro, embalando-o, e ele teimando em continuar acordado. De repente, um avião cruzou o céu e ele viu. Instintivamente, o guri, deitado, ergueu o braço direito e apontou o dedo do meio, em riste, para o avião, em meio à todas aquelas pessoas reunidas para um encontro católico. Por mais que não tenha sido sua intenção, quem estava lá e viu apenas um pequeno bracinho erguendo um dedo que comumente é utilizado para demonstrar desafeição pode ter tido um entendimento diferente do que “olha lá um avião!”. Enfim, momentos embaraçosos fazem parte da paternidade.