sexta-feira, 29 de agosto de 2014

Livin' on a Player

Nesses dias estava ouvindo rádio no carro quando começou a tocar “American Jesus”, do Bad Religion. Eu vibrei, comecei a cantar e batucar no volante. Depois dei-me conta que tenho a mesma música no MP3 do mesmo aparelho de som, instalado no mesmo carro, e consecutivamente eu passo dessa música para uma outra quando ouço o início. Penso “ah, essa já ouvi nesses dias”. E mesmo tendo ouvido “nesses dias”, adorei quando tocou na rádio.


Foi mais ou menos assim

Se não fosse pelo ocorrido do mês passado, o meu filho estaria nascendo apenas por esses dias. Todo o nosso planejamento estava focado nesse período, mas quis o destino - esse sarrista - que ele nascesse de uma forma incrivelmente conturbada e que nos fez correr de um lado a outro durante semanas até que o guri, enfim, estivesse bem e em casa.

A semelhança das duas histórias baseia-se no fator surpresa e como ele te afeta no momento. Eu posso passar uma música boa por ter o controle sobre isso, mas é empolgante quando ela se apresenta sem eu ter escolha. Eu posso fazer tudo de acordo com o “script” de “o que fazer quando for ter um bebê” - arrumar a mala do rebento, saber para qual hospital ir, ter o telefone do obstetra em mãos, passar o horário de visitas para parentes e amigos - com toda a calma do mundo, por estar preparado para aquele momento (ter o controle), mas ficar totalmente perdido quando o momento selvagemente aparece do nada e com ares de crueldade.


Like Jon in the snow

O ser humano é prepotente por natureza. Independente do credo ou fé que tenha, no fundo todos achamos que temos o controle de todas as situações. Na verdade, tendemos a tentar manipular a ocasião de forma que seja possível estar no comando. Mas não é bem assim que a vida funciona. Em alguns momentos, o que nos resta é esperar - seja esperar por uma música ruim acabar e torcer para começar uma melhor, ou curtir o momento de uma música boa, esperando que a próxima seja tão boa quanto. Um grande amigo meu fez uma excelente analogia: assim como um soldado despreparado em guarda noite adentro olha para a escuridão como se estivesse enxergando tudo, tendo que permanecer de pé e aguardando o nascer do Sol, para que a tensão e a obrigação de guardar seu posto acabasse, lá estava eu, no hospital, aguardando informações sobre minha mulher e filho sem poder perder a postura. Afinal, como eu já disse na postagem sobre a cadela louca, a maior virtude do ser humano é saber se adaptar a uma adversidade.


Mesmo sem ter o controle do rádio, eu fiquei ali, firme, esperando aquela música horrível - que parecia cantada pelo dueto Gusttavo Lima e Tati Quebra Barraco, com Chimbinha nas guitarras - acabar de uma vez e torcendo para que a próxima não fosse tão ruim, ou pior. E a espera valeu a pena, pois depois tocou uma música incrível, daquelas com 10 minutos de solos animais de Clapton e Knopfler, que tocam no final do show, com chuva de papel picado e o Tyler dando mosh na plateia, enquanto o Burton distribui palhetas. E quando essa música tocou, eu vibrei, comecei a cantar e a batucar. E se estivesse na minha lista de MP3, deixaria no repeat por um bom tempo.


terça-feira, 26 de agosto de 2014

Metamorfose ambulante

Muita gente não sabe, mas esse não é meu primeiro blog. Eu tive um há alguns anos atrás, quando começou a modinha. Mas eu, sempre contrário a tendências, quis fazer um blog diferente do que era feito na época.

Para quem não lembra, o conceito de “blog” era inicialmente ser um diário virtual e público. As pessoas contavam sobre seu dia, a meninada falava do boy magia que eram afim e os moleques basicamente falavam de videogame. Já eu pensei em fazer uma linha diferente: não falar nada da minha vida - mesmo porque eu sempre fui muito reservado - mas sim falar do cotidiano, de fatos curiosos, fazer piada ou críticas a um determinado assunto.

Agora cá estamos, mais ou menos 10 anos depois, e eu estou pisando em cima de todos os meus conceitos antigos. Eu, num tempo em que o conceito “blog” mudou para exatamente o que eu fazia no início (sim, eu criei uma tendência, deal with it =D), voltei a falar sobre a minha vida. Na verdade, no caso, a minha e do meu filho.

Engraçado como as pessoas mudam com o tempo, seja nos propósitos, nos planos, nos conceitos e até mesmo no caráter. Eu era um moleque revoltado com “o sistema”, queria morar sozinho (mesmo sendo apenas um office boy), ter uns 5 filhos e ganhar meu primeiro milhão antes dos 30. No fim, aprendi que todos fazemos parte do tal “sistema”, seja pelo seu emprego, pela sua atitude ou pela “necessidade” de comprar um carro zero. Fui direto da casa da mãe para morar com minha esposa em um apartamento alugado, tive meu primeiro - e talvez único - filho aos 29 e o mais perto de um milhão que cheguei foi em alguma festa junina, na barraca de milho verde.
um milhão

Na mesma levada, conheço várias pessoas que mudaram muito com o tempo: tem amigo meu que era roqueiro convicto e hoje vai em show de sertanejo, amigo que dizia que nunca iria namorar, ia só curtir a vida e agora está praticamente casado, amigo que prometeu que nunca iria beber porque cerveja tinha gosto ruim e hoje é um louvável pé de cana.

A verdade é que nossos planos e nossas convicções mudam de acordo com a necessidade. Nesse blog tenho escrito sobre tantas coisas que gostaria de fazer para o meu filho no futuro, mas eu não posso nem prometer isso sem ter uma pulga atrás da orelha. Será que meu pensamento será o mesmo que tenho hoje? Será que eu não trocarei as minhas prioridades?

Quando eu tinha meus 15 anos, lembrava de como eu era com 13 e pensava “nossa, como eu era um idiota!”. Com 19, lembrava dos meus 15 e pensava “nossa, como eu era um idiota!”. Com 25, a mesma coisa a respeito de quando eu tinha 19 anos. Hoje, lembrando de mim nas 25 primaveras, adivinha? De duas uma: ou quanto mais envelheço, minhas certezas de antigamente transformam-se em interrogações de acordo com a experiência que angariei nos anos subsequentes, ou ser um idiota é uma condição vitalícia. Só espero que a minha idiotice não me desvirtue da prioridade de criar meu filho da forma mais correta possível, mesmo sem carrinhos, rock n’ roll, perseguições ninjas e sem saber quando colocar luvas de gaze ou segurar seus braços junto ao corpo.





sábado, 23 de agosto de 2014

Guia passo a passo: como fazer uma mamadeira

Nesses dias meu primo perguntou “por que você não faz um guia passo a passo de como fazer uma mamadeira para o bebê?”. Eu sei o que você está pensando, mas embora pareça trivial, há certos detalhes que um pai precisa saber a respeito dessa arte milenar. Uma das propostas desse blog é exatamente auxiliar outros pais ou futuros pais a exercer da melhor forma possível essa tarefa vitalícia que é a paternidade. Por isso, aqui vai o Guia passo a passo de como fazer uma mamadeira corretamente:


1- Lave bem as mãos, seguindo as instruções a seguir:



2- Coloque água para ferver. IMPORTANTE: precisa ser água da torneira, visto que a água mineral pode conter resíduos prejudiciais ao bebê.


3- Após fervida a água, coloque com calma na mamadeira a quantidade indicada pelo pediatra e cuidado ao manusear para não se queimar!


4- Coloque uma medida de leite - que vem junto com a lata - para cada 30 ml de água. Não exagere na medida!


5- Fixe a tampa interna da mamadeira (aquela parte que parece um disco) e chacoalhe bem para misturar o leite, de acordo com os movimentos abaixo:

dig din dig din


6- Retire a tampa interna e coloque em água fria corrente para baixar a temperatura.



7- Pingue uma gota do leite na mão para verificar se não está muito quente.

No caso da animação acima, a temperatura está “ok”

8- Sirva o bebê com calma para que ele não se afogue.


Pronto! Espero que esse guia tenha sido esclarecedor o suficiente, e que ajude outras pessoas a dominar os mistérios envoltos nesse procedimento crucial para a sobrevivência do rebento. Meus cumprimentos.

quarta-feira, 20 de agosto de 2014

The Future is Now

Por que a primeira coisa que me falam quando digo que meu filho foi para casa é “tá conseguindo dormir?” ou “é, agora que começa a batalha de verdade!”, hein?

Primeiramente: o bebê mais dorme do que fica acordado. Normalmente nós que temos que acordá-lo para que mame nos horários corretos. Ele quase não chora, mal resmunga, e é muito bonzinho. O meu cachorro latindo no quintal me priva mais do sono do que meu próprio filho.

Por favor, pare com isso.

Ok, foi só um desabafo. Se você perguntou algo do tipo ou falou algo do tipo, não se sinta mal, nem pense que estou bravo com você. Mas parece que criou-se uma mística negativa a respeito de o que é ter e criar um filho, porque a grande maioria dos que fizeram esse tipo de comentário são pessoas que não tem filhos.

Chega a ser assustador como boa parte do povo gosta de desencorajar decisões como casamento, gerar e criar filhos, formar uma família. Quando comuniquei que estávamos esperando um filho, muitos me perguntaram se tinha sido planejado, como se com 29 anos e 2 anos e meio de casados ainda fossemos muito novos ou imaturos para criar uma criança. Aí perguntavam de dinheiro, se já tínhamos feito tudo que queríamos fazer como casal, etc., etc. Teve gente que disse que temos muita coragem em colocar um filho em um mundo tão desorientado como o de hoje. Tiveram outros, com mais ou menos a mesma idade que a nossa, que disseram que nem pensam em ter filhos, porque precisam focar na carreira. Teve ainda quem falasse que não quer ter filhos, que é egoísta demais para pensar em dividir a vida com alguém que dependa 100% dela. Tiveram os que falaram que preferiam viajar e pensar lá perto dos 40 em ter um filho, ou adotar um - porque né, muito empenho ficar lá carregando por 9 meses, não poder beber, ter dores no parto e tudo mais.

Eu compreendo que talvez não seja seu plano ter um filho, ou pelo menos não tê-lo tão logo, mas convenhamos que é um caminho meio natural, biológico. “Crescei-vos e multiplicai-vos”, afinal sem filhos a humanidade um dia acaba. O que me espanta não é quem não quer ter a mesma experiência que eu estou tendo, mas sim os que acham isso um absurdo. Cada um sabe o que é melhor para si, e eu respeito isso. Mas seria importante se informar um pouco mais sobre tudo o que engloba gerar um filho. Ter um filho não é só as fraldas sujas, os vômitos de leite, as noites mal dormidas, a carteira vazia, a conta do banco no vermelho. É a sensação de deixar algo para esse mundo. Para mudar o futuro, tem que começar fazendo algo desde já, não?

Dizem que você precisa escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho. Mas não adianta escrever o livro e não publicar, plantar a árvore e não regar e ter o filho e não cuidar dele para que se torne um cidadão de bem. Publicar um livro deve ser um processo chato e burocrático, regar a árvore todos os dias pode ser entediante, mas ajudar o filho a crescer me parece ser uma aventura diária. E é por isso que escolhi colaborar com o futuro mundial dessa forma. Mesmo que me custe algumas horas de sono.


Obs.: a ordem é “escrever um livro, plantar uma árvore e ter um filho”. Não é pra plantar o filho, escrever no filho, plantar um livro ou escrever na árvore, ok?




domingo, 17 de agosto de 2014

Missão: Impossível

Quando eu tinha mais ou menos uns 10 anos, encafifei que queria comprar um presente de Dia das Mães para - obviamente - minha mãe. Mas eu queria ir sozinho, escolher e pagar com o dinheiro que eu tinha.

Naquela época, existia no centro da cidade uma feira de artesanato, montada todos os domingos pela manhã. Eu já era acostumado a ir lá com meus pais, meus tios e meus avós. E já sabia qual ônibus pegar e onde parar. Claro que, na primeira metade dos anos 90, a realidade era outra: a cidade era bem mais tranquila, o índice de assaltos ainda era pequeno, e era normal - pelo menos para mim - crianças pegarem ônibus sozinhos. Mas ainda assim, ir sozinho para o centro não era algo comum e totalmente seguro. Ainda assim, eu estava predestinado a ir. Falei com o meu pai, que depois de muita deliberação, aprovou.

Saí faceiro, todo dono de mim, para pegar o ônibus. Paguei ao cobrador a passagem, sentei no banco e esperei ansioso pelo momento de apertar o botão de parada quando chegasse perto da feira. Minhas pernas pequenas - balançando no ar por não ter altura ainda para alcançar o chão do ônibus - não exprimiam o meu sentimento de grandeza por estar sozinho e a caminho de cumprir um feito tão representativo para alguém da minha idade.

Ao chegar na feira, passeei pelos corredores da feira, vendo em cada barraca um presente que pudesse representar a importância da minha eletrizante jornada. Quando gostava de algo, gravava onde a barraca estava e partia para a próxima. Obviamente eu não tinha muito dinheiro - 10 anos né, minha gente - e por isso precisei caminhar bastante para encontrar algo que me apetecesse. No fim, nem lembro exatamente o que eu comprei. Só lembro da minha sensação de missão cumprida ao voltar para casa.

foi mais ou menos assim que me senti durante o passeio

Ao ler essa história, você pode pensar “meu Deus, com 10 anos e andando sozinho no centro? Que tipo de pai permite isso?” ou “nossa, então o mundo hoje está muito mudado, pois eu nunca deixaria meu filho de 10 anos pegar ônibus sozinho, muito menos ir para o centro!”, entre tantos outros pensamentos recriminatórios. Mas algo que eu não sabia - e fui descobrir apenas há algum tempo atrás - é que meu pai foi atrás de mim. Me seguiu por todo o trajeto, me observou parar em cada barraca, e quando me perdia de vista no meio da multidão, se enfiava no meio para sempre saber onde eu estava. E eu, ingênuo, em nenhum momento desconfiei, sequer olhei para trás. Diz meu pai que, em alguns momentos, quando eu me virava, ele se escondia no meio das pessoas, para que eu não o visse.

Provavelmente, se eu descobrisse na época, eu ficaria bravo com ele, reclamaria que ele não confiava em mim ou que ele não me deixou caminhar com minhas próprias pernas (como se eu já tivesse idade para tal). Mas hoje eu fico admirado em pensar na atitude dele. Ele encontrou um jeito de demonstrar que confiava em mim quando eu mais queria isso, de me proteger durante todo o percurso e ainda de observar o quão capaz eu era de executar a tarefa que eu disse que iria fazer. Para mim, essas duas horas entre sair e voltar de casa é uma síntese dos deveres de um pai durante a vida toda do filho: proteger sem precisar se mostrar, observar sem alarmar e confiar sempre que o filho prove que merece tal confiança.

Não sei se terei que seguir meu filho, feito um agente secreto ou um ninja, também duvido que ele pegue ônibus sozinho aos 10 anos de idade. Não sei dizer em que momentos da vida eu poderei aplicar os mesmos ensinamentos que tive com esse pequeno fato da minha infância, mas se essas atitudes forem necessárias para fazer meu filho se sentir tão bem quanto me senti naquele domingo, com certeza eu o farei.