quinta-feira, 8 de janeiro de 2015

A ameaça canina

Uma e meia da manhã. Acordo com os latidos ensandecidos dos cachorros - o meu, oficial, e a cadela, temporária. Temendo pelo sono dos anjos do meu filho e da minha esposa, fui ver o que estava acontecendo. Cheguei distribuindo água com a mangueira do jardim para dispersar os cães e olhei pelo portão para encontrar o motivo de tanto desespero canino. Eis que um cachorro, na rua, me vê e vem em direção ao portão. Era um cachorro branco, lindo, possivelmente perdido. Não tinha coleira, mas com certeza não era um dos cães de rua da vizinhança, já que conheço praticamente todos (devido à inimizade que o meu cachorro nutre por eles). Ele me olhava como quem pede ajuda. Eu poderia ignorá-lo e torcer para que fosse embora, ou voltar para dentro de casa, pegar dois potes e colocar água e ração para ele, mas havia chances que isso causasse mais visitas do cão à minha porta e, consequentemente, mais latidos durante a noite, colocando o sono da família em risco. Então, tomei uma decisão drástica: liguei a mangueira contra o cão, para expulsá-lo de perto de casa. Na primeira vez ele resistiu, mas a segunda saraivada de gotículas de água fez o serviço. Enfim, a ameaça havia sido neutralizada. Mas a que preço?


Era parecido com esse aqui


Demorei para conseguir dormir. Sou muito mole quando se trata de animais, principalmente os desamparados. Pra piorar, um tempo depois começou a chover, e fiquei imaginando o que havia acontecido com o pobre cão perdido. Mas aí percebi que atingi mais um ponto na escala evolutiva de ser um pai de família: proteger os meus a todo custo. Pode parecer egoísmo ou prepotência, mas é fato que, quando se atinge o status de pai de família, é preciso ir contra o senso comum de que “somos todos iguais” e estabelecer que os membros da sua família são mais importantes que qualquer outro ser vivo. Você, enquanto detentor de tal responsabilidade, vai manter em seu subconsciente a ideia que seus filhos são melhores e mais importantes que todos os outros filhos, que sua mulher é melhor e mais importante que todas as outras mulheres, e que enfrentará as piores feras - ou cães abandonados - para manter o bem estar deles.


Aí, ó! Todos protegem seus bacuris!


Parece cruel, mas faz todo o sentido biológico: da mesma forma que meu cachorro e a cadela maluca latiam incessantemente contra o outro cão, vendo nele uma ameaça ou invasor do território que eles definem como sendo deles (no caso, a minha casa), nós pendemos a proteger o que é nosso, por mais irracional que pareça. Por isso, sinto muito, cachorrinho-branco-bonito-e-sem coleira-que-pareceu-pedir-arrego-pra-mim, mas naquele momento eu fiz uma escolha, e escolhi  garantir o sono tranquilo da minha família. Espero que você possa me perdoar.

domingo, 4 de janeiro de 2015

OOO EEE AAAAAAA♫

Parece que o guri tá afim de aprender a falar. Há quase um mês ele começou com uns “UH!”, parecendo uma corujinha. Aí eu comecei a imitá-lo, e ele descobriu que podia me responder. Eis que virou um coral de corujas: ele fazia um “UH!” e eu respondia com um “OW!”, e por aí vai. Dali umas semanas, descobriu que não precisava só fazer bico, mas que podia emitir sons com a boca aberta, e também mudar os sons mesmo quando ele já está saindo. Assim, ele aprendeu quase todas as vogais - ainda falta o ”i” - e, de vez em quando, uns NH, G e M. Agora ele já tem capacidade para cantar o tema de abertura da Copa do Mundo.

Gooool da Alemanha!

Ele fica muito feliz por conseguir fazer barulhos: abana os braços, mexe as pernas e se empolga de um jeito que consigo imaginar Carruagem de Fogo tocando ao fundo. E é melhor você respondê-lo, senão ele fica bravo! O mais divertido é ver o esforço descomunal que ele faz para soltar esses sons: se concentra, bota os lábios pra dentro ou faz bico e começa a fazer ”HMMMMMMMMMMMMM” até finalmente sair o som com a boca aberta. Às vezes ele começa a falar enquanto chora, como se estivesse argumentando o motivo pelo qual a choradeira está a rolar.



Mas pai... A vida não é fácil!

O ápice foi na semana passada: ele (nos) acordou falando. Duas vezes. Quando o deixamos sozinho no carrinho de bebê ou deitado em algum lugar, ele começa a reclamar da nossa ausência, com todas as letras que já consegue pronunciar. Nesses dias também o flagrei “cantando” AC/DC (parece que meu pedido foi atendido) no carro.

Yeah!

Fico imaginando como vai ser quando ele finalmente falar de verdade (em inglês ou não), pois se ele está tão tagarela e exigente agora, daqui a uns anos deverei ter em casa um exímio comunicador. Eu falava demais quando era criança e minha esposa também adora falar pelos cotovelos. Realmente, parece que a fruta nunca cai longe do pé!

quarta-feira, 31 de dezembro de 2014

Dosmilequinze

Esse foi, de longe, o ano mais louco que já vivi. Não só pelo fato de ter virado pai, mas por tudo que isso englobou. Quem acompanhou ou leu a respeito de como foi o nascimento e o período que se estendeu após isso, sabe do turbilhão que passamos, além de outras correrias, e surpresas, e acontecimentos. Pessoas que achei que ficariam mais próximas de nós exatamente por causa do nascimento do nosso filho se distanciaram (e algumas tiveram a pachorra de dizer que nós “sumimos”, como se não soubessem do período de 3 meses que tivemos que ficar entocados em casa), já outros que estavam mais distantes, se aproximaram. Teve alguns, ainda, que surpreendentemente se dispuseram a nos ajudar e apadrinhar o guri sem que esperássemos, mesmo porque não achávamos que estariam tão conectados conosco ao final da epopeia da eclosão bebezística. De certa forma, o meu início de ano passou quase despercebido exatamente pela quantidade de experiências que aconteceram do segundo semestre para cá. 2014 me proporcionou três aprendizados que levarei para a vida toda:

1- Se sua mulher está grávida, leve-a ao médico ao menor sinal de desconforto. Pode ser só gases, mas leve-a ao médico ou a um hospital. Não adianta levar só na maternidade, veja um local que atenda ambos, pois maternidade só cuida direito da criança;

2- Amigos de verdade não mandam só mensagens perguntando se “estão todos bem”, mas ligam ou batem à nossa porta para ter certeza. Acima de tudo, fazem questão de estarem conosco, principalmente quando são convidados;

3- O mais importante: você só se torna adulto após ser mãe/pai. Não é com 18 anos, não é quando sai da casa da mãe, quando compra seu primeiro carro ou quando se casa. A responsabilidade de cuidar de uma vida extrapola qualquer conta que vence no fim do mês, qualquer infração de trânsito que você possa cometer, todas as tarefas que seu chefe quer que você termine antes das 17h de sexta-feira ou aquele ingrediente crucial para a receita e que você esqueceu de comprar no mercado  - e sua esposa provavelmente irá te matar por isso. Ter um filho é rever suas prioridades, abdicar de quase todo o seu desejo próprio em prol da saúde e da segurança de uma pessoinha em miniatura que só tem um sorrisinho banguela pra te oferecer como retribuição a toda essa dedicação. Mas esse sorrisinho vale muita coisa, como vale…


Feliz ano novo!


quinta-feira, 25 de dezembro de 2014

Então é natal…

Eis que passo meu primeiro natal como pai, e eis que não mudou muita coisa. Acredito que vou sentir o peso de ser um pai nas festividades natalinas só quando ele tiver idade pra me pedir uns beyblades de presente. Nem me vestir de papai noel serviria, já que nem tenho barba e minha pança só tá uns 20% do necessário para fazer o papel do bom velhinho.


Beyblade de pobre.


Mas se para mim não foi surpreendentemente impactante, não posso falar o mesmo da minha família. A chegada do guri causou furor no recinto: tias se descabelando, primos brigando entre si, madrinha empurrando tio pela escada para chegar por primeiro, entre outros ocorridos que só se vê na TV à tarde, no programa da Márcia.


Falando nisso, ainda existe o programa da Márcia?


O fato é que ele passou grande parte da noite dormindo. Outra boa parte mamando e um tanto de tempo chorando - afinal era muita gente estranha para ele, fazendo caretas e barulhos semelhantes a um apocalipse zumbi. Mas o impressionante mesmo foi a capacidade dele conseguir dormir tanto. A minha família é grande e do tipo italiana, com uma ou duas tias e umas duas primas que, quando se empolgam, facilmente adquirem a habilidade de se tornarem supersônicas. Ainda assim, ele estava tendo o sono dos anjos.


Nem precisou de um desses


Acho que a tal “magia do natal” aconteceu mesmo na hora da entrega de presentes: ele ganhou muitos, de brinquedos a roupas, além de acessórios que serão de grande valia. Após anos ganhando de presente apenas meias e uma ou outra camiseta, vi o carro cheio de papéis de presente e sacolas na hora de ir embora. Apesar de não serem para mim, me lembrei de como era divertido o natal quando era criança: a expectativa de dar meia noite para poder abrir os presentes, a ansiedade para saber quem me daria o quê, os abraços de agradecimento e as brincadeiras com os primos. Aí eu tive a certeza que a tendência é que cada natal seja mais alegre, ano após ano. Mesmo que eu tenha que comprar barba e barriga postiças - ou começar a comer muitos donuts.


Feliz Natal!


domingo, 21 de dezembro de 2014

Lava, lava, lava, uma orelha, uma orelha - Parte 2

Continuando a saga das primeiras vezes, hoje eu dei um banho completo no guri pela primeira vez. Antes eu era apenas coadjuvante, já ajudei a segurar, a passar sabão, mas não tinha assumido a titularidade na arte de higienizar o pimpolho.

Dar banho é consideravelmente mais complicado do que trocar fraldas, tendo em vista que você nunca tem certeza que limpou tudo direitinho. Numa troca de fraldas, o inimigo está ali, pastosamente apresentado, contrastando com a pele do bacuri - e cheirando muito mal, diga-se de passagem. Já no banho, você até tenta limpar integralmente a superfície bebezística, mas será que todo o suor, resquícios de vomitinhos e caquinhas foi devidamente removido?

Valeu, Neto!

Já viram aquela tática que os médicos fazem de sujar as mãos do paciente com tinta para ver se ele sabe lavar a mão corretamente, alcançando todos os espaços? Pois bem: de repente, cobrir o filho de tinta guache ou com farinha, e aí dar um banho, é uma alternativa plausível para confirmar que sua forma de dar banho está de acordo com a ABNBB - Associação Brasileira de Normas para Banho em Bebês.

Melhor não. Vai que o guri gosta da brincadeira?

Outra preocupação é lavar as costas e o bumbum: tem que virar o guri de costas, deixando-o cara a cara com a água. Aí você tem que achar o ângulo perfeito entre deixá-lo muito reto - e sem maleabilidade pra lavar o popoti - e ouvir uns “glub glub glub” - que acredito não ser muito saudável para a criança.

Roupa apropriada pra dar banho no bebê

Enfim, para um primeiro banho, acredito que me dei bem: ele saiu com cheirinho de camomila, sem vergões, roxos ou arranhões. Também não chorou, nem tentou pular para fora da banheira para tentar salvar sua vida. Logo, me auto-pontuo com nota 8. Vamos ver como serão as próximas vezes - se é que a mãe dele vai permitir que seu amado filho ter mais doses de adrenalina como hoje.